quinta-feira, 30 de junho de 2016

O VALOR DA ALEGRIA

Todos conhecemos pessoas que têm o hábito de cultivar o mau humor. Por tudo se aborrecem e ao invés de um sorriso alegre nos lábios oferecem ao seu interlocutor uma expressão dura no rosto, reclamam da chuva e do sol, certamente por não compreenderem suas divinas finalidades.
        Sabemos no entanto, que essa conduta muitas vezes é apenas um recurso, de que essas pessoas se utilizam para esconderem suas próprias inseguranças, seus medos e suas frustrações diante da vida e por isso mesmo se investem de pseuda superioridade.
        É evidente que muitos dos nossos aborrecimentos, têm sua gênese na nossa imprevidência e insensatez, que nos leva ora, a prevaricar na busca do necessário, revelando uma inércia muito comum nas pessoas que já foram visitadas pelo desânimo ora, a perseguir desesperadamente o supérfluo ou uma migalha do poder temporal, em tudo refletindo uma tremenda ausência de fé no Mestre Divino que já anunciava que os pássaros não semeiam e nem colhem e ainda assim são alimentados pelo Pai Celestial.
        A propósito, é certo que quem se dignar a erguer o olhar em direção ao céu pontilhado de estrelas ou contemplar uma árvore frondosa, vai testemunhar a revoada de avezinhas , despreocupadas, tal qual alegres crianças no recreio escolar mas, em tudo revelando a grandeza incomparável do nosso criador, da qual poucos duvidam.
        Existem pessoas também, que mesmo sorrindo escondem no coração enormes feridas que não procuraram e que não puderam evitar e que nem por isso desistem de suas trajetórias ou sequer contribuem para tornar a ambiência em sua volta mais azeda , mais amarga ou mais pesada porque já alcançaram um grau de maturidade espiritual que lhe permite compreender que a queixa, no dizer de Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Franco - Messe de Amor - Ed. Alvorada - pode ser comparada a um ácido perigoso que sempre produz dano, cria pessimismo e estimula a ociosidade e dizemos nós, calcifica os bons sentimentos.
        Todavia, a verdade é que todos nós, criados que fomos pelo amor divino, no fundo de nossas almas queremos cultivar a alegria mas, porque então, estamos freqüentemente tristes, afinal a alegria é ou não algo que se possa alcançar ainda neste mundo?
        A primeira questão a considerar é que sendo a alegria um estado de espírito, é fácil compreender que ela se expressa segundo o grau de evolução moral de cada pessoa, que condiciona os seus valores, seu caráter, seus hábitos, sua conduta na vida civil pois, o que encanta uma alma evoluída termina por aborrecer outra que ainda está realizando a sua evolução. A Segunda, é que ninguém, soberano ou mendigo, sábio ou ignorante, vive neste orbe sem que um dia, penetre numa nuvem de tristeza, ainda que seja motivada pelas reminiscências das vidas passadas , de experiências agradáveis vividas no mundo das idéias, como preconizava o sábio Platão.
        Desse modo, também não é difícil inferir que a alegria que somos capazes de experimentar, ainda é aquele sentimento passageiro de bem estar, proporcionado pelas conquistas patrimoniais e de títulos, que deixam sempre um ponto vazio no fundo dos nossos corações, cumprindo-nos ressaltar que lamentavelmente, muitos até conseguem se regozijar com o infortúnio do seu próximo, olvidando que recebemos exatamente o que damos, que o pensamento bom ou mau que emitimos na direção do nosso adversário, mais cedo ou mais tarde voltará a nos envolver na sua carga vibratória própria.
        Pensadores do jaez de um Platão, para ficar só com um exemplo, já afirmavam que a alegria apta a preencher a alma em toda a sua plenitude há de ser permanente e portanto ter uma natureza imaterial, de tal sorte que, quem desejar cultivar esse sentimento em toda a sua acepção, tem que necessariamente libertar-se do poder utópico de suas paixões e da influenciação negativa do medo, para considerar que os grandes obstáculos escondem sempre grandes tesouros e que portanto, a maior alegria que podemos experimentar resulta do prazer de vencermos a nós mesmos.
        Nada proporciona mais alegria a um ser humano que deixar-se penetrar pela natureza em sua volta, à hora do crepúsculo, sob um sol dourado, esquecendo-se de si mesmo, em interminável conversação com um amigo verdadeiro que, para Aristóteles é raro mas existe pois, somente quando atendemos suas reais necessidades é que nasce na nossa alma esse sentimento generoso.
        Com efeito, a melancolia é uma gravíssima doença da alma, que muitas vezes tem sua origem na solidão, na ausência do amigo preferido, pelo que devemos incontinente, eleger nosso predileto e anunciar tal como no poema de Elias: "Eis aqui o meu servo que escolhi; o meu amado em quem minha alma se agrada" pois, ainda que momentaneamente desacompanhados não venhamos a nos sentir solitários. Precisamos cultivar a amizade, num nível tal que seja capaz de nos fazer lembrar, Jônatas e Davi, Rute e Noemi, exemplos bíblicos de verdadeira sintonia espiritual ou, pelo menos, num plano menor, a que prevaleceu entre Antônio e Cleópatra.
        A verdade é que o amor, a força que tudo anima, pode efetivamente oportunizar a real alegria pois, quem na alma tem amor, traz no olhar, fulgor, no sorriso, cor, nos gestos, calor e no corpo todo aquele vigor que denuncia uma permanente juventude, aliás razão sobra ao poeta Vinícius de Moraes, quando anunciava: ser alegre é melhor do que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe.
        A ciência, na sua formação e enquanto adolescente, fortemente envolvida num materialismo céptico, frio e calculista era sem dúvida a maior adversária da religião, reduzindo-a a algo sem nenhuma expressão no contexto da vida social, pelo que se utilizava de todos os meios possíveis para provar e negar a validez dos valores espirituais, desconsiderando que um povo sem religião, é como um corpo sem alma, não tem substância, raízes nem chão, enfim, é um povo bárbaro, que perde-se nas trevas da sua própria incredulidade.
        Nada obstante, observou-se que a religião tem funcionado como uma força motriz vitalizante que atua de modo incisivo na índole humana e nas sociedades desde épocas mais remotas e ao longo da história de toda humanidade, com uma presença na vida social notória e incontestável, o que aliás constatamos quando retrocedemos ao passado da civilização para encontrarmos exemplos de episódios verídicos na fonte da própria história.
        Em nome da religião tem o homem sacrificado o seu ínsito instinto de conservação, deixando-se morrer aos poucos, nos jejuns pelos desertos, ou permitindo que o matem para não venerar a outro deus que não seja o seu deus verdadeiro. Pela religião, os clérigos aderiram ao celibato, perdendo-se nos mosteiros e reprimindo o natural e divino instinto de reprodução sexual em favor de votos fiéis de castidade, nem sempre suportados, e os povos e cristãos enfrentaram-se em conflitos religiosos sanguinolentos, como aliás ainda hoje acontece na Irlanda do Norte, entre católicos e protestantes, o mesmo ocorrendo entre os adeptos do islamismo na Índia e no Paquistão.
        Por causa do sentimento de fé, outrora, a igreja católica foi arbitrária para com os cristãos quando instituiu o tribunal da santa inquisição, com a finalidade de julgar, condenar e queimar vivo em fogueiras públicas, quem ousasse contrariar seus princípios tirânicos ou qualquer inimigo do poder político, cometendo assim crimes cruéis contra a dignidade da pessoa humana. Pela religião, o indivíduo foi elevado e libertado da prepotência do Estado, que lhe tolhia o livre arbítrio à prática da liberdade de culto enquanto muitos missionários, sacrificaram suas vidas, para pregar a palavra divina aos povos bárbaros e incultos, ofertando um testemunho de fé.
        Graças a participação da religião houve o despertar de uma consciência religiosa livre, pela qual lutaram os brâmanes com suas renúncias, os anacoretas com suas mortificações e tantos homens abnegados e amantes da paz, como o fora o apóstolo Gandhi que induzira o seu povo a abster-se da violência, todos contribuindo para o alvorecer da liberdade política, para a consolidação da família , da democracia e dos direitos humanos.
        Dúvida não há que o pensamento científico permaneceu estagnado no período medieval, quando a igreja católica fora tirana, perseguindo os cientistas e ameaçando-os de morte pela queimação, como aconteceu com Galileu Galilei que fora obrigado a abjurar das suas idéias científicas em relação ao sistema solar e com Lutero, que ao iniciar a pregação de uma nova doutrina religiosa - o Protestantismo - foi intimado a comparecer frente a um juri clerical para declarar o porque de sua ideologia, ocasião em que, submetido ao vexame da excomunhão, queimou a bula papal em praça pública, o que o obrigou a fugir da sua terra natal para não ser preso e virar churrasco.
        Não obstante, podemos afirmar que o grande avanço da civilização só foi possível quando a religião operou como força social, reprimindo os instintos animalescos do homem e elevando o padrão moral da sociedade, impulsionando-o para a prática da solidariedade num relacionamento mais fraterno, o que vale dizer, preparando-o para, no futuro amar o seu próximo, pois já se observou que sempre que essa motivação religiosa se ausentou, em qualquer de suas formas, o homem caiu na sujeira do próprio barro de que surgiu, para precipitar a sociedade na lama, na indescência e na destruição.
        É fácil portanto concluir que a religião contribuiu poderosamente para manter o equilíbrio da família, modificando a natureza poligâmica do homem, valorizando mais o ser humano, enfim, tem ela servido de veículo para a unificação dos povos, para a segurança da paz universal e principalmente, para se estabelecer a fé na supremacia de um Único Deus, Pai amoroso criador de todas os seres vivos e inanimados.
        Por tudo isso, apesar do grande avanço tecnológico, quando o homem domina a energia atômica e vence as distâncias siderais, não podemos apontar a religião como coisa do passado, ao revés, ela apresenta-se como uma permanente necessidade visando o equacionamento das grandes questões metafísicas que aparentemente ainda não foram resolvidas e por isso continuam a torturar muitos homens, tanto no terreno da antropologia ( o que somos? De onde viemos?, Para onde vamos? ) quanto da cosmologia (o que é o mundo? De onde veio? Para onde vai?).
        A incessante busca das respostas para essas questões é a base eterna da religião, que hodiernamente caminha lado a lado com a ciência posto que tanto as leis que regem o mundo material, concreto, visível, quanto as que disciplinam o mundo espiritual, invisível, têm a sua gênese na Inteligência Divina, de tal sorte que a compreensão daquelas indagações, depende em muito de uma correta combinação de razão e sentimento, eis que segundo Allan Kardec, o bom senso reencarnado, em o Evangelho Segundo o Espiritismo, "não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade".
~João Chene~

Nenhum comentário:

Postar um comentário